O comércio eletrônico explodiu no Brasil nos últimos anos (tanto que o governo decidiu mudar a forma como distribui o imposto sobre vendas). Com facilidade, tranquilidade e praticidade, podemos adquirir todo tipo de produto ou serviço sem sair de casa, e ter acesso a itens que nunca estariam disponíveis em um comércio local numa cidade menor.

Mas com todo esse crescimento, é claro que surgiram também oportunistas, muitos deles se aproveitando da famosa característica do brasileiro de ‘querer levar vantagem em todo’. Com isso, não é difícil encontrar lojas fantasmas, anúncios super tentadores e vendedores que desaparecem tão rápido quanto surgiram.

Neste artigo você aprenderá quatro truques para identificar ofertas e lojas fraudulentas, e com isso não ter prejuízo ao fazer compras na internet.

Atualização em 18/01/2017: confira no final do artigo.

Para estas explicações usaremos as telas de um site fraudulento que acabo de descobrir, e que no momento da redação deste artigo (10/04/2016) ainda está no ar. Os nomes e dados pessoais serão ocultados, mas os truques deste artigo podem ser aplicados a qualquer loja ou site.

É importante lembrar que nos dias de hoje é incrivelmente fácil criar uma loja virtual. Para ter uma loja, basta contratar uma hospedagem, instalar um sistema de comércio eletrônico (existem vários gratuitos), trabalhar o layout, cadastrar os produtos e pronto. Para um fraudador o processo todo pode ser concluído em um único dia. O simples fato de se ter um site não confere nenhum tipo de legitimidade a nenhum negócio.

E agora vamos às dicas.

Truque 1: Verifique o preço médio do produto

Sabe aquele ditado “O barato sai caro”? Se uma oferta é boa demais pra acreditar, é porque ela realmente é “boa demais”.

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No nosso site fraudulento de exemplo encontramos uma Smart TV Philips de 55″. Observe na imagem acima que o preço do produto é de R$ 999.

Mas calma! Antes que você diga “MEODEOS PRECISO APROVEITAR ESSA PROMOÇÃO, JÁ VOU COMPRAR 3 E VENDER PROS MEUS AMIGOS E FICAR RYKO!!!”, pare um minuto. Com uma pesquisa de menos de 30 segundos no Buscapé descobrimos qual é o verdadeiro valor deste produto. Procurei pelo número do modelo, pra ter certeza de que era a mesma TV:

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Agora pense: Se essa TV custa no mínimo R$ 3.149,10, porque é que qualquer loja venderia por R$ 999?

“Ah Denis, deixa de ser chato cara, a loja tá fazendo uma mega promoção de ponta de estoque.” É mesmo? Você arriscaria ficar sem R$ 1.000 do seu suado dinheiro pra descobrir se é ou não uma promoção?

Promoções existem, e são benéficas pro consumidor. E você tem todo o direito de pesquisar preços e comprar no mais barato. Mas quando um vendedor oferece um produto a um preço MUITO, MUITO abaixo da média para um produto novo, é um péssimo sinal.

Truque 2: Verifique as formas de pagamento ofertadas

Para fazer essa verificação pode ser que você tenha de fato fazer o pedido na loja. Você pode fazer isso usando dados falsos para não comprometer a sua privacidade.

Golpistas SEMPRE dão um jeito de obrigar o comprador desavisado a pagar com boleto ou depósito bancário, pois nessas formas de pagamento não há estorno (pelo menos não que eu saiba). Um fraudador pode montar um site num dia, receber os pagamentos dos clientes via banco, sacar todo o dinheiro e desaparecer na semana seguinte. Até o comprador se dar conta do que aconteceu, o banco não poderá mais lhe ajudar em nada – e nem a polícia.

No nosso site fraudulento eu simulei uma compra com dados falsos e cheguei à página de pagamento.

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Este fraudador usou uma tática diferente: disponibilizou o boleto E TAMBÉM o cartão, mas ao fazer o pagamento com cartão ele avisa que o valor será 50% maior.

Por si só isso já indica uma fraude pois é ilegal cobrar a mais do consumidor para usar o cartão de crédito. Mas é prática comum no comércio brasileiro fazer o caminho inverso: dar descontos para quem paga com boleto (o que não é ilegal). Ocorre que este desconto raramente passa de 15%. E de qualquer forma porque alguém se ofereceria para lhe vender um produto NOVO pela metade do preço? É a mesma lógica usada por aqueles vendedores de produtos ORIGINAIS da 25 de Março.

“Sei lá cara, e se for um produto usado ou seminovo?” Isso não está explicitado na loja. E de qualquer forma, produtos usados raramente são vendidos em lojas virtuais – normalmente eles são anunciados em sites como o MercadoLivre, que possuem mecanismos para proteger compradores e vendedores.

Truque 3: Verifique os dados bancários e da loja

Qualquer negócio que se preze, seja físico ou virtual, irá seguir todos os trâmites legais, e o primeiro deles é obter um CNPJ. Hoje no Brasil é possível abrir uma empresa extremamente simplificada através do MEI – Microempreendedor individual, e esta empresa pode até mesmo vender produtos físicos. Com essa facilidade, não existe desculpa pra alguém não formalizar o seu negócio.

Além disso, segundo uma lei aprovada recentemente, as lojas virtuais estão obrigadas a divulgar seus dados, preferencialmente no rodapé. A ideia é resolver questões como “Se eu tiver um problema, onde vou pra resolver?”

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Na imagem acima podemos ver o rodapé do nosso site fraudulento à esquerda, e de uma loja legítima (Submarino) à direita. É como diz o ditado: “Quem não deve, não teme.” Mas por outro lado ter um CNPJ e toda a papelada não é comprovação de que o negócio é de fato legítimo. Devemos então seguir com as verificações.

Ao fazer o pedido falso comentado anteriormente, chegamos à tela de pagamento.

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Porque uma empresa de eletrônicos que decide trabalhar honestamente abriria uma conta poupança num dos bancos que mais tem agências e correspondentes bancários? E mais: os dados foram ocultados, mas o golpista publicou um CPF ali. Porque uma empresa divulgaria um CPF?

“Mas Denis, tem gente que não tem empresa e vende como pessoa física.” Isso é verdade, mas há casos e casos. Alguém que vende uma pequena quantidade de produtos menores, ou alguém que vende produtos artesanais como adesivos, convites, lembrancinhas ou presta serviços simples como gravar CDs, poderia optar por não abrir uma empresa, pelo menos no começo. Mas uma empresa que pretende vender eletrônicos, que precisa emitir nota fiscal e que se apresenta com uma boa quantidade de produtos (conforme consta no site)? É muito suspeito.

Alguém que chega a tal nível já estaria se preocupando em regularizar sua situação para transmitir transparência e honestidade para seus clientes.

Truque 4: Verifique os dados do domínio da loja

Esse truque… mais fácil impossível. Acesse o site www.registro.br, clique em Tecnologia, em Ferramentas, em Serviço de diretório whois e digite o endereço do site que você quer consultar. A Registro.br é a única entidade no Brasil responsável por todos os domínios com terminação .br – o que significa que todos os endereços .com.br, .net.br e afins poderão ser consultados no site deles.

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Ao consultar os dados do domínio da loja fraudulenta, pude ver que os dados do titular correspondem aos dados informados para a conta bancária de que falei no truque anterior. Até aí nada de mais, mas uma coisa chama a atenção: a data de criação do domínio. Ele foi criado em 05/04/2016, ou seja, há 5 dias a partir da data em que escrevi este artigo. Uma loja que entrou no ar há pouco tempo e está vendendo produtos topo de linha a preços absurdos? “É BOM DEMAIS PRA ACREDITAR!” </sarcasmo>

Isso por si só também não é indicativo de que há fraudes, afinal todos têm de começar em algum momento. Mas os sites que foram criados há mais tempo tendem a ter uma reputação bem maior, além de elogios (e reclamações) de clientes. Golpistas não duram muito tempo. Alguém lembra da Neon Eletro? 😀

Bônus: Truque 5: Procure por referências, verifique no Google e em sites de reclamações como o Reclame Aqui.

Uma loja boa sempre é elogiada, certo? E uma loja ruim recebe críticas – as quais são devidamente tratadas se a empresa quer manter sua reputação. Toda loja que está no ar há um certo tempo gerará algum tipo de comentário na internet, seja bom ou ruim. Então, procure pelo nome e pelo domínio da loja usando o Google e o Reclame Aqui. Se você não encontrar nada ou pouca coisa, fique alerta: pode ser um golpe recém criado.

Adendo em 18/01/2017 sobre boletos registrados

Em 2017 o Banco Central do Brasil decidiu eliminar o chamado ‘boleto sem registro’, muito utilizado por lojas virtuais devido à sua simplicidade de implementação. Nesta modalidade de boleto os bancos simplesmente lançam o valor do documento nas contas correntes dos emissores dos boletos, sem qualquer identificação de remetente e destinatário. E justamente devido a esta simplicidade, tais boletos são muito usados por lojas virtuais devido ao seu baixo custo.

Porém com o aumento na incidência de fraudes causadas por lojas virtuais que desaparecem tão rápido quanto surgem, o governo decidiu tomar uma posição. Para reduzir as chances de fraudes, obrigou que todos passassem a utilizar os chamados boletos registrados.

Nesta modalidade o banco que emitiu o boleto recebe os dados do emissor (a loja virtual ou o vendedor) e o do comprador no momento da geração do boleto. Isso por si só não reduz as fraudes, mas permite que os bancos (e por consequência, o governo) saibam exatamente quem está pagando e quem está recebendo.

Isto pode dar uma chance de pegar os fraudadores, que abrem contas correntes, recebem valores via boleto e depois somem com o dinheiro. Com o registro destes dados, pode ser possível localizar estes fraudadores.

Mas como disse, isso por si só não reduz as fraudes, nem torna o boleto uma forma de pagamento mais segura.

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